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sexta-feira, 17 de abril de 2020

1 | Poema | Rui De Noronha Ozorio

Tenho diamantes nas têmporas 
a cantar a álgebra dos dias 
sinais de desregulação do vento 
tinteiros que contam histórias a crianças lunares 
gatos nas janelas dos cemitérios 
a fazer cócegas aos deuses diurnos 
vinho a ondular 
nas gaiolas abertas da feitiçaria 
tratados de filosofia na piscina dos indigentes 
globos de espuma a bicar a esperança 
e fornos de lenha a escalar edifícios 
tenho cabos eléctricos nos aquários das calças 
tenho precipitações verticais nos ângulos do sexo 
e bocas inteiras a sorver o óleo das flores 

Tenho poetas que dizem Amor 
e trocam de roupa nas galerias dos óculos 
Tenho rumores de estrelas 
a bater às portas das bibliotecas 
e livros com saias às costas 
tenho dores que me fazem sorrir 
partos no tabuleiro das cidades 
e dragões na fímbria do pénis 
a pedir fogo 
a chorar calda de açúcar nos altares do comércio 

tenho índias nas caravelas quebradas 
e especiarias atrás dos olhos 
tenho uma língua acordada 
e o destino na rua 
Tenho asas que nascem das salas de cinema 
e orquestras de ostras sem pérola 
tenho salvas de palmas em prata carnívora 
e cornucópias nos espaços das unhas 
tenho um dedo do tamanho do homem 
e os amantes da poesia mortos há séculos 
tenho pistolas de disparar o azul 
e vítimas adolescentes nos mictórios da saudade 

- Eis a relação dos meus bens até à data

Rui De Noronha Ozorio

terça-feira, 7 de abril de 2020

1 | Poema | Rui de Noronha Ozorio

Subo as escadas 
para sentir o vento na palma 
das mãos e soprar violinos 
dentro de um copo aquático 
formando assim
as ondas do mar 

Olho o mundo ajardinado 
como se existisse 
e dos dedos 
saem luas serenas 
como afluentes de um caleidoscópio 

Uma árvore corre 
atrás da primavera 
até ganhar asas 
as folhas vestem-se de penas 
e voa pássaro de si 

Há-de encontrar o amor 
pelas índias 
Um Amoríndio quando o fogo pousar 

Encosto-me ao azul de uma pedra 
leio um livro como se engole 
a vida 
Reparar na tua mão que pede 
a minha 
tocar-te 
e as estrelas todas acenderem

Adormeço 
enquanto os lírios cantam 
e sei tão bem 
que a árvore encontrou a primavera 

Rui de Noronha Ozorio
in Mar Subverso (Fresca)