Tenho diamantes nas têmporas
a cantar a álgebra dos dias
sinais de desregulação do vento
tinteiros que contam histórias a crianças lunares
gatos nas janelas dos cemitérios
a fazer cócegas aos deuses diurnos
vinho a ondular
nas gaiolas abertas da feitiçaria
tratados de filosofia na piscina dos indigentes
globos de espuma a bicar a esperança
e fornos de lenha a escalar edifícios
tenho cabos eléctricos nos aquários das calças
tenho precipitações verticais nos ângulos do sexo
e bocas inteiras a sorver o óleo das flores
Tenho poetas que dizem Amor
e trocam de roupa nas galerias dos óculos
Tenho rumores de estrelas
a bater às portas das bibliotecas
e livros com saias às costas
tenho dores que me fazem sorrir
partos no tabuleiro das cidades
e dragões na fímbria do pénis
a pedir fogo
a chorar calda de açúcar nos altares do comércio
tenho índias nas caravelas quebradas
e especiarias atrás dos olhos
tenho uma língua acordada
e o destino na rua
Tenho asas que nascem das salas de cinema
e orquestras de ostras sem pérola
tenho salvas de palmas em prata carnívora
e cornucópias nos espaços das unhas
tenho um dedo do tamanho do homem
e os amantes da poesia mortos há séculos
tenho pistolas de disparar o azul
e vítimas adolescentes nos mictórios da saudade
- Eis a relação dos meus bens até à data
Rui De Noronha Ozorio
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