quando Deus era criança, suas mãos passeavam
pelos campos de centeio desde a manhã até a noite
suas mãos eram pássaros e gorjeios inundavam o vento
os campos cresceram
as mãos de Deus sangraram de cansaço –
Ele sentia-se só, no coração despovoado da infância
e a sua voz era uma harpa plangente contra o vento
quando Deus era criança, sua ferida tinha o cheiro dos campos
o cheiro da solidão dos campos
e as suas lágrimas eram uma chuva escura sobre o vale
que coisa triste era Deus
que triste não ser visto e ouvido
que triste não ser compreendido
então, da matéria da sua solidão, Deus criou o homem
e deu-lhe liberdade para ver, ouvir e compreender
em uma paisagem austera, onde os astros brilham distantes
e o homem, feito da matéria de Deus,
é como um resquício triste de luz na sombra do vale,
é como um recinto que todos abandonaram
deixando uma vela acesa –
onde nomes pousam na tentativa de compreender
como se fora sol, mas é apenas chama provisória –
aonde os nomes descem do nome não revelado de Deus,
como houvesse um nome não revelado de Deus,
e partem como pássaros para o azul
e quando o sol deita na planície vasta
e o homem diz meu Deus
Deus sofre –
porque, não sendo compreendido,
não compreende a sua criação
Laís Araruna de Aquino
lido aqui
Sem comentários:
Enviar um comentário