sexta-feira, 3 de abril de 2020

A voz do silêncio | Poema | Clarissa Macedo

Trago as marcas de terra na pele.

Aos corpos atirados da janela
dei epitáfios, sobrenomes.

Do negro que me gerou
tirei música, insônia.

Da infância que não me deixa,
a doença de festejar e crer.

Dos sem-tudo que cruzam a rua,
a crença de não ser.

Converso com os velhos.

Sou prima dos indecentes.

Sou irmã dos cegos, dos aleijados,
dos promíscuos e dos dementes.

Sou filha da poesia (neta dos enjeitados)
que me adotou, vestiu e deu nome:
A muda da rua quatro, que só sabe a língua
dos ventos.

Clarissa Macedo
in O trem vermelho que partiu das cinzas

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