Trago as marcas de terra na pele.
Aos corpos atirados da janela
dei epitáfios, sobrenomes.
Do negro que me gerou
tirei música, insônia.
Da infância que não me deixa,
a doença de festejar e crer.
Dos sem-tudo que cruzam a rua,
a crença de não ser.
Converso com os velhos.
Sou prima dos indecentes.
Sou irmã dos cegos, dos aleijados,
dos promíscuos e dos dementes.
Sou filha da poesia (neta dos enjeitados)
que me adotou, vestiu e deu nome:
A muda da rua quatro, que só sabe a língua
dos ventos.
Clarissa Macedo
in O trem vermelho que partiu das cinzas
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