sexta-feira, 5 de junho de 2020

Kintsugi | Poema | Maria Rezende

Não ser a mulher do avião
ruminando a palavra amor
a vida escorrendo verde pelo canto da boca

Não ser a que se desculpa
pelo almoço
pela agenda
por voar
por existir

Ser vibrante
ter a voz inteira
não oferecer soluções pra inexistentes problemas
não se espatifar
não se desmilinguir

Nunca ser a mulher do avião
engolindo sua culpa com amendoins
mendigando afeto pelo telemóvel

Ser frágil
aceitar as quedas
desistir de polir cada mínima aresta
e remendar com ouro as rachaduras

Maria Rezende
in "Hermanas"

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