quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Barro | Poema | Angel Cabeza

Deus criou nas trevas
os vinte dedos do homem
e sua caligrafia cinzenta.
Cego, imaginou
o som do sangue.
Num súbito lampejo,
investiu no sujo da têmpora;
teceu chumbo nas escápulas
da criação.
Impedido de voar,
o homem consumiu o céu
com olhos vitralizados;
expeliu todo o fogo herdado.
Inferno abaixo da terra nunca existiu.
Esse peso de Sísifo...
Esse vislumbre do voo...
Desde então o homem
segue agradecendo diariamente
a falha nas asas.

Angel Cabeza

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