quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Agora | Poema | Ana Elisa Ribeiro


Agora
Advérbio, susto, tempo em transe. Instante.

Respire fundo, ordenou. O amor é agora.
Fará o favor de se esquecer dos amantes passados,
Que atrasam a vida em muitas horas - às vezes décadas;
Fará o bem de olhar adiante
E viver apenas o que lhe ocorre aqui,
Estando imerso nas situações até que a água
Cubra seu nariz. Afunde-se sem se afogar.

[
Respirar correctamente não é simples.
Um médico lhe disse, certa vez, que dormia mal
Em decorrência de respirar entrecortado, arfar no fim do dia,
Não conseguir usar plenos pulmões, jogar a ansiedade no intestino
E travar aquelas talagadas de ar de que todos deveríamos nos embebedar.
]

O amor não pode ser entrecortado, vivido sem fluência.
Amor é sentimento de vida curta, exigente,
Sem pretérito algum e sem mais-que-perfeito.
É dessas coisas feito peixe e aquário:
Um dia a gente chega e ele está boiando morto
Numa água que parecia limpa.


Ana Elisa Ribeiro
in Revista Germina

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